Mas não se esqueça. Só porque você não acredita em alguma coisa não quer dizer que não é real.
O Livro Perdido das Bruxas de Salem. As palavras “livro”, “perdido”, “bruxas” e “Salem” me chamaram a atenção direto. Pra variar, vou dizer que curto o assunto. Antes de falar sobre o livro vou falar sobre a autora. Katherine Howe, americana, descendente de Elizabeth Howe e Elizabeth Proctor. Ambas, acusadas de bruxaria em 1692, e a última escapou só por estar grávida. Isso deve ser algo interessante de se ter na árvore genealógica.
Para aqueles que não conhecem a história, em 1692, a cidade de Salem foi assolada por denúncias de bruxaria. Em pleno auge do puritanismo na América, e entende-se por puritanismo uma religião onde não se bastam boas ações para ser agraciado, era Deus quem decidia quem seria ou não agraciado.
As coisas ruins que aconteciam eram, em geral, vistas como forma de desaprovação divina. Portanto, era preferível tratar como bruxaria acontecimentos como gado doente, leite azedo e doenças, ao invés de se imaginar como um não-agraciado.
Para resumir, quando algumas crianças, filhas de autoridades locais adoeceram, estas acusaram o motivo: bruxaria. Então, ínumeras pessoas foram acusadas, culpadas e enforcadas por esse crime.
Entra então a questão que norteou a autora: e se, na realidade, ao invés de ser uma desculpa para outros motivos, houvessem realmente bruxas em Salem? E se os praticantes de bruxaria realmente existiram?
Voltemos ao livro. Durante as férias, Connie Goodwin, uma estudante de doutorado, precisa se mudar para a casa de sua avó, nas proximidades de Salem. A casa, porém, é completamente diferente daquilo que ela esperava, não tem nem energia elétrica!
E é durante uma faxina que ela encontra, dentro de uma Bíblia antiga, uma chave, e dentro da chave, um nome: Deliverance Dane.
Ao pesquisar sobre isso, ela encontra muito mais do que um bilhete perdido, mas também a fonte primária para sua tese de Doutorado. Imagine só, como seria bom, para uma historiadora, ter uma tese sobre uma bruxa de Salem desconhecida por todos esses anos!
Quem era ela? Por que seu nome apareceu naquela casa? O que realmente aconteceu? E aqui, para aqueles que conhecem um pouco a rotina acadêmica dessa área de estudo, segue-se uma exteeeensa pesquisa, onde ela descobre que Deliverance Dane deixou um livro incomum. Seria esse um livro de feitiços? Porém, como obter essa resposta se o livro havia se perdido?!
Connie fica dividida entre a curiosidade por conhecer a história, as tarefas de organizar a casa da avó, os encontros com Sam, um possível-futuro-alguma-coisa e as pressões de seu orientador, que aumentam conforme o professor vai ficando mais estranho. Com tudo isso na cabeça, ela fica ainda mais perturbada com estranhos eventos que estão acontecendo na casa e com ela mesma. Bem intrigante.

E tudo isso ainda é entremeado pelo passado. A autora conta também a história de Deliverance Dane, sua vida e a de suas descendentes, mostrando qual a verdadeira natureza dos eventos ocorridos e, claro, delas mesmas. E detalhe: vários nomes citados nessa parte são de pessoas reais, e aqui vale dar um destaque para a intensa pesquisa feita pela autora em relação aos fatos e costumes daquela época.
Eu gostei do livro. Me identifiquei pacas com a personagem principal, já que este pode ser um dos caminhos do meu futuro. [E agora eu vejo com certeza: alguns intelectuais acadêmicos são um pé no saco, mesmo]. Além disso, eu gostei bastante das questões que aparecem no livro [acabei de passar um bimestre lendo sobre a ética puritana em sociologia], não é simples invencionice, pelo contrário, dá pra perceber que rolou uma extensa pesquisa sobre o assunto.
Por ser um obra de ficção, não pode faltar, é claro, uma trama que envolva outros elementos. E esse elemento fica a cargo de Sam, o possível romance futro dela. Além da parte boa, há também o mistério que anda sondando a vida dela: por que as enigmáticas dores de cabeça? Por que alguém queimaria a porta de sua casa? Por que seu orientador andava tão estranho e tão ligado a pesquisa dela?
Muitas coisas eu matei logo no início do livro, já tinha dado pra sacar o que ia acontecer. Mas eu realmente me surpreendi com outras. Em suma, gostei dele. É interessante de ler, não só pra quem curte um romance, mas principalmente pra quem curte um pouco de história, quem quer discutir algumas questões sociológicas, quem quer uma distração, inclusive.